Restos de uma alma inóspita
16/5/12
Fiquei chateada. Vi que nunca vou
deixar de ser trouxa, eu e meu
coração mole cheio de mosca
comendo o sagu igualmente mole.
Tudo bem, penso eu. A vida segue.
Ser humano é aceitar que a decepção
faz parte da vida. A esperança, como
boa guerreira, consiste
Clarissa Corrêa (via ultimoparagrafo)
15/2/12

(via ultimoparagrafo)

15/2/12

(via ultimoparagrafo)

15/2/12
Teu corpo é pecado e teu rosto é confissão. As nódoas de tinta na parede lembram- me nossos rascunhos mal projetados e sujos pela dor. O jeito que você esticava o lábio inferior quando falava ou sorria transmitia o farfalhar das asas rasgadas dos anjos ao léu. As tuas mãos viris que tocavam a minha pele ruborizada incandesciam meu humor. O vento insistia em trazer- nos os sussurros gravados em mármore fúnebre e os quadros arcaicos e negros.
Só há macelas no meu jardim agora. Não há mais Charles e Carolina, porque eu fui quando você se foi. Tua voz ecoa meu coração taciturno e a tempestade despetala a flora. A cortina amarela e vagabunda segue o redemoinho e parte ao vento, enquanto eu permaneço distante e fugitiva.
Restaram- me as incertezas que colocaram- me à conclusão: nós sempre teremos à arte, Charles. Mas bastou- nos o vazio agora.
(youseethestar)
10/2/12
Te vejo perdendo-se todos os dias entre essas coisas vivas onde não estou. Tenho medo de, dia após dia, cada vez mais não estar no que você vê. E tanto tempo terá passado, depois, que tudo se tornará cotidiano e a minha ausência não terá nenhuma importância. Serei apenas memória, alívio, enquanto agora sou uma planta carnívora exigindo a cada dia uma gota de sangue para manter-se viva. Você rasga devagar seu pulso com as unhas para que eu possa beber. Mas um dia será demasiado esforço, excessiva dor, e você esquecerá como se esquece um compromisso sem muita importância. Uma fruta mordida apodrecendo em silêncio (…) Caio Fernando Abreu (via borboletarios)

(via costurandovidas-deactivated2012)

10/2/12
E o sol me ensinou, moço: o que brilha também queima. Feiticismo (via feiticismo)

(via c-e-u)

10/2/12
Ela está em todas as coisas
até no vazio que me dá
quando vejo a tarde cair
e ela não está
Jorge Vercillo. (via anrcc)

(via costurandovidas-deactivated2012)

10/2/12
Dava pra sentir você dançando só pra mim… Acostumar, Marcelo Camelo (via me-mima)

(via costurandovidas-deactivated2012)

10/2/12
                         Dia em que descobri que os anjos comem flores

Ele era um anjo tão lindo quanto a estrela de nome Intrometida. Sentado na calçada, descalço, sem auréolas ou asas, pele tom bege, tatuagem tom carmesim num dos braços, mãos friccionadas contra o peito, olhos de jabuticaba direcionados ao livro “As margaridas do quintal vizinho”. Percebi que ele relia sempre a mesma página com as sobrancelhas franzidas na sua pele plissada… E ele sorria ao infinito num doce nuance que revelava a sua malícia de ser anjo, de ser brisa, xícara de chá faceira e gostosa que fica no fundo do armário de vidro, escondida e afastada da dor irrefreável do mundo.
Lembrei- me de quando observava o céu através da janela e vi pela primeira vez o anjo, que desceu –cantando acalantos- do céu incinerado e pisou no solo arado do quintal vizinho, d’onde arrancou algumas flores e sumiu como pó leve e colorido. A minha alegria por descobri- lo ficou incontida, então decidi por espera- lo todos os dias no mesmo lugar. Ele sempre voltava, voando sem asas ao léu do vento, isento de pecados ou dores, fio de luz como raio do sol na sua ternura lúdica; eu, vazia como sou, amava o anjo secretamente (num amor celestial e luminescente), e colocava um disco de vinil orquestrado para tocar quando ele chegava e partia no seu jeito parcialmente fugaz, arrancando, como já disse, algumas flores vizinhas.
Houve uma vez, início do Inverno, em que o anjo não veio. A tarde era banal e as flores do vizinho murcharam. Foi o dia em que saí de casa e o encontrei na rua lendo o livro.
Decidi me aproximar de maneira afável, meu espírito frívolo chegando perto de um anjo tão importante e distante, de certa forma… Momento-súbito aquele em que o anjo me viu e partiu, largando o livro aberto na calçada. Aproximei-me e vi a página que ele lia copiosamente: parcialmente corroída por cupins e com desenhos de margaridas rasgadas como ilustração. A escrita era essa:
O que tu serás
Senão um anjo
Que come as margaridas do quintal vizinho
E parte como poeira
Deixando de estar?
Sê a alegria que parte faceira
Lilás- roxa
Ou o que for
Sê o alvorecer, anjo nosso
Sê a distância entre o sol e a humanidade
Como conchas esplendentes que aparecem vezenquando
Sê o anjo- veludo
Com olhos de pedra
E coma as margaridas suaves, não esqueça
Sê sazonal
E que brilhe a tua pedra
Anjo- meu
No doce do teu olhar
Peguei o livro e parti para casa. Decidi cultivar um jardim de margaridas também: o anjo poderia, assim, visitar e comer minhas flores quando quisesse. E eu poderia ver o anjo- meu visitando- me, com o doce do seu olhar. 

(youseethestar)- Anjos comem flores.

                         Dia em que descobri que os anjos comem flores

Ele era um anjo tão lindo quanto a estrela de nome Intrometida. Sentado na calçada, descalço, sem auréolas ou asas, pele tom bege, tatuagem tom carmesim num dos braços, mãos friccionadas contra o peito, olhos de jabuticaba direcionados ao livro “As margaridas do quintal vizinho”. Percebi que ele relia sempre a mesma página com as sobrancelhas franzidas na sua pele plissada… E ele sorria ao infinito num doce nuance que revelava a sua malícia de ser anjo, de ser brisa, xícara de chá faceira e gostosa que fica no fundo do armário de vidro, escondida e afastada da dor irrefreável do mundo.

Lembrei- me de quando observava o céu através da janela e vi pela primeira vez o anjo, que desceu –cantando acalantos- do céu incinerado e pisou no solo arado do quintal vizinho, d’onde arrancou algumas flores e sumiu como pó leve e colorido. A minha alegria por descobri- lo ficou incontida, então decidi por espera- lo todos os dias no mesmo lugar. Ele sempre voltava, voando sem asas ao léu do vento, isento de pecados ou dores, fio de luz como raio do sol na sua ternura lúdica; eu, vazia como sou, amava o anjo secretamente (num amor celestial e luminescente), e colocava um disco de vinil orquestrado para tocar quando ele chegava e partia no seu jeito parcialmente fugaz, arrancando, como já disse, algumas flores vizinhas.

Houve uma vez, início do Inverno, em que o anjo não veio. A tarde era banal e as flores do vizinho murcharam. Foi o dia em que saí de casa e o encontrei na rua lendo o livro.

Decidi me aproximar de maneira afável, meu espírito frívolo chegando perto de um anjo tão importante e distante, de certa forma… Momento-súbito aquele em que o anjo me viu e partiu, largando o livro aberto na calçada. Aproximei-me e vi a página que ele lia copiosamente: parcialmente corroída por cupins e com desenhos de margaridas rasgadas como ilustração. A escrita era essa:

O que tu serás

Senão um anjo

Que come as margaridas do quintal vizinho

E parte como poeira

Deixando de estar?

Sê a alegria que parte faceira

Lilás- roxa

Ou o que for

Sê o alvorecer, anjo nosso

Sê a distância entre o sol e a humanidade

Como conchas esplendentes que aparecem vezenquando

Sê o anjo- veludo

Com olhos de pedra

E coma as margaridas suaves, não esqueça

Sê sazonal

E que brilhe a tua pedra

Anjo- meu

No doce do teu olhar

Peguei o livro e parti para casa. Decidi cultivar um jardim de margaridas também: o anjo poderia, assim, visitar e comer minhas flores quando quisesse. E eu poderia ver o anjo- meu visitando- me, com o doce do seu olhar. 

(youseethestar)Anjos comem flores.

20/1/12

(via somewhereinbrooklyn-)

16/1/12
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